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Acolhendo a Criança Interior

Há em cada um de nós uma criança que permanece — mesmo quando o tempo passa, mesmo quando a vida exige que sejamos adultos. Essa criança guarda as primeiras experiências de amor, de dor, de medo e de desejo. Ela é a testemunha silenciosa de tudo o que fomos e, muitas vezes, do que ainda não conseguimos elaborar.

Na psicanálise, essa dimensão infantil não se apaga: ela se transforma. Melanie Klein nos ensina que o mundo interno do sujeito é povoado por fantasias inconscientes formadas desde o início da vida, marcadas pelas relações com os primeiros objetos de amor e de frustração. A criança interior é, assim, o espaço onde habita a nossa sensibilidade, mas também as feridas de um passado que não foi plenamente compreendido.

Winnicott aprofunda esse olhar ao falar do ambiente suficientemente bom — aquele que, quando existe, permite à criança sentir-se segura para ser, para brincar, para criar. Quando esse ambiente falha, algo se interrompe: o brincar vira defesa, o gesto espontâneo se retrai, e o sujeito cresce com um sentimento de que precisa se proteger do mundo — e de si mesmo.

Acolher a criança interior é, portanto, um ato de escuta. É permitir que essa parte esquecida possa finalmente falar. É olhar para o medo, a vergonha ou o sentimento de rejeição sem julgamento, reconhecendo que o sofrimento de ontem ainda pode estar vivo nas escolhas de hoje. É uma forma de dizer a si mesmo: “Agora eu posso cuidar de mim como não puderam antes”.

No processo analítico, essa escuta acontece lentamente, em palavras, em silêncios, em lágrimas que encontram lugar. E, nesse espaço de confiança, o sujeito começa a reconstruir dentro de si o ambiente que um dia lhe faltou. A criança, antes calada, pode brincar novamente — e o adulto, enfim, respirar.

Acolher a criança interior não é regredir, é integrar. É compreender que ser inteiro não significa apagar as marcas do passado, mas reconhecer nelas o que nos constitui. É o encontro entre o que fomos e o que podemos ser.

“Acolher a criança interior é um gesto de amor e de reconciliação. É dar voz ao que permaneceu esquecido, para que o novo possa nascer.”
Dr. Fernando Sousa — Psicólogo e Psicanalista (CRP 11/17507)
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