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Sobre o Abandono

Há dores que não se nomeiam facilmente. O abandono é uma delas. Ele atravessa o tempo, deixando marcas que o corpo sente, mesmo quando a mente tenta esquecer.

Na psicanálise, o abandono não é apenas a ausência de alguém. É um traço que se inscreve na história psíquica — um eco de algo que faltou quando o sujeito mais precisava ser olhado, reconhecido, acolhido. Essa ausência funda o que chamamos de falta primordial: a experiência de perceber que o outro, aquele que deveria garantir continuidade e presença, também pode faltar.

Freud nos ensina que é a partir dessa falta que se forma o desejo. E Winnicott aprofunda: quando o ambiente falha — quando o bebê não encontra um olhar suficientemente bom — o mundo pode tornar-se um lugar inseguro, ameaçador. A ausência do outro se converte em angústia, e o sujeito aprende, cedo demais, a não precisar.

Mas o abandono não é apenas um evento; é uma forma de registro. Ele se reinscreve nos vínculos, nas repetições, nos amores e desencontros da vida adulta. É o medo de ser deixado, o impulso de se afastar antes que o outro o faça, o silêncio que se instala onde caberia um pedido de ajuda.

No processo analítico, essa dor ganha voz. Ao narrar o abandono, o sujeito deixa de ser refém da cena que o aprisionava. É nesse espaço de escuta — onde o dizer se encontra com o desejo — que o que era ferida começa a se transformar em palavra. E o que antes era vazio, pode se tornar lugar de criação.

O abandono não desaparece; ele se ressignifica. Ao atravessá-lo, o sujeito descobre algo fundamental: não é o outro que devolve a inteireza perdida — é o próprio encontro com o inconsciente que reconstrói o sentido de existir.

“A análise não apaga a falta, mas nos ensina a habitá-la. E talvez ser inteiro, depois de tudo, seja isso: aceitar que há ausências que não se preenchem, mas se transformam.”
Dr. Fernando Sousa — Psicólogo e Psicanalista (CRP 11/17507)
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